terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

CARTINHA DE UM PERO SACANA

Andam nus, sem veste alguma,
Ou quando muito, uma pena.
Não fazem o menor caso
De ofender a cristandade
Do poema grave
Coas coisas plenas.

A feição é serem pardos.
Quando festivos, galhardos.
Bonzinhos, belos narizes.
Nos campos, qual meretrizes
De teatros afamados.
As fêmeas têm saradinhas
Pererequinhas peladas.

Fez-me o demo sugestão:
Meter verso nas cunhãs,
Rimas tecendo nas peles.
Ridentes como noitinhas,
As estrofes não repelem
Amantes mitologias.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

ELES SOBREVIVERAM

Eles sobreviveram, guardaram como recordação as tenazes para dedos, ocultaram em cima do guarda-roupa a guilhotina portátil, a forca automática, a metralhadora oculta num disfarçado guarda-chuva-e-sol.
Saem de manhã como o cachorrinho azul, depois, à tarde, voltam para suas casas, beijam faces familiares, tomam café com pão-de-queijo, talvez, ou tomem os netinhos no colo, emocionados com as possibilidades de seus futuros, querendo viver mais uns doze anos para vê-los cursando Direito ou Medicina ou Odontologia ou comendo rabos de saia debaixo de pontes e edredons sob os olhares de seus Capitães-do-Mato.
Como são belos esses velhinhos com caras de céu e corpos de jardim de plástico!
Como são frágeis seus passos sem culpa!
Como são saúdaveis com suas refeições de horas certas!
Estão uns anos a mais, quase morrendo, e esperam mais doze, em Deus pela Pátria e Liberdade, devorando muito ferro e zinco da Nova Culinária.
Vez em quando, um desses velhos apanha uma cadeira daquelas bem seguras que recebem seu peso sem reclamar, tranca o quarto, eleva a mão direita enrugada em seus vários rios de sangue, amarra um inseto, desinfeta seu pescocinho e lança mão de sua guilhotina portátil, enquanto exibe ao nada seus implantes dentários.
Sobreviveram, medem quase um século, jogam damas em nossas praças de velhos ridentes, inermes e inofensivos, dando xeques-mate como as velhas ordens que davam de moer várias cabeças em seus liquidificadores.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

CLITHEROE (DE CLITÓRIS), NOSSO ESPELHO

Prendo minh’alma no espelho, onde me vejo irritável, um enorme nariz respirando tensões ao quadrado.

Prendo no pó da ansiedade tudo que os olhos aturam dos fatos.

No espelho do poema espalho a  palha que hoje mesmo será levada pelo vento: em Clitheroe, Inglaterra, amigos contrariam a lógica e empalam com sua desumanidade uma garota vítima de estupro.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

JORRANDO INADMISSÍVEIS

Rios plenos de tragédias
Abrem os ouvidos às árvores oblíquas

Inadmissíveis teses jorram ausências de vida
O ver-e-ouvir sem asas nos soterrados prédios

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

SE DEIXARES ME JOGAREI

Pode pisar, o tempo é teu,
Não esqueças que embaixo,
Embora o espaço/tempo dobre
E nos confronte,
Senhora,
Faço palavras-circunferência.

Quando estiveres sem ar em cima
Não esqueças a força que de teus olhos
Senhora
Pus ao canto dos meus óculos como estepe
E só há sofrimento no poema
Quando ele se joga.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

COMIDA E POESIA

Um poeta em fome
não cria poemas.
Comendo um miolo
Já faz um grafema.

Um poeta sedento
não segura o ser.
Mas se bebe orvalho
Versos faz nascer.

Um poeta em becos
Pode até criar
Se achar um seco
Grão para mascar.

Veja o poeta pobre
Com livro composto...
Mas come, pois cobre
Carne magra ao rosto.

Com sede e com fome
Só a morte vive.
Mais o poeta come
Mais o poema é livre.

AOS POETAS O ENIGMA DA ESFINGE

Qual todos os homens, o poeta acorda,
qual todos, ele ri e chora, e erra
tanto quanto o rei da Inglaterra,
qual todos, ele tira a meleca do nariz
quando só uma pessoa por acaso o vê.
Qual todos os homens, o poeta vive,
qual todos, morre a cada desamor,
e precisa do seu perdão, mesmo
que você não o dê, e qual todos
cutuca os ouvidos com as unhas
quando só uma pessoa por acaso nota.
Qual todos os homens, o poeta cansa,
e cansado reza ou não pro escuro chegar,
e o escuro não chega tão rápido quanto quer
como ocorre com todos os homens que têm pressa.
Qual todos os homens, o poeta quer marcar
com lápis grosso o destino incerto,
quer assinar papéis inúteis com inutilidades,
quer deixar nos outros uma saudade como flâmula.
Qual todos, quer chegar de novo ao porto onde deixou
o mais fundo de si mesmo, quer abraçar de novo
os adultos mais altos que puder encontrar,
e os nomear seus deuses, garantia de primícias.
Qual todos, os poetas confirmam o enigma da esfinge.